O PROJETO

É da natureza da criação artística andar no desconhecido, no risco, no efêmero. Assim também são os indecifráveis caminhos da vida que andam cada vez mais por terrenos de incerteza, fluidez e impermanência. Vida líquida, na definição do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Nesse espaço transitório, o homem cada vez mais se quer singular, se expressar individual e coletivamente, nos campos virtuais e presenciais, como forma de afirmar a sua subjetividade e diferença em relação ao outro.

À luz de estudos, pesquisas e criações artísticas, buscamos colocar um foco em algumas destas questões num amplo e longo debate, tendo como objeto A Teatralidade do Humano.

Que espaços ocupam no mundo esses diferentes atores da sociedade? O que revelam e ocultam? O que afirmam ou negam? Como isso se reflete na cena contemporânea e nos coletivos de criação?

Mergulhamos fundo em aspectos da história das colonizações, nas linguagens estéticas, na ética, na política, nas artes, no teatro, nas artes visuais, na arquitetura da cidade, no espaço da rua, no pensamento crítico, nos afetos, nas sociabilidades do cotidiano, nas culturas, nas tecnologias, no humano e para além do humano. Reflexões que se revelaram em palavras, gestos e imagens.

Todo este conteúdo registrado no palco, nas mesas, nos espaços de passagem, arredores do teatro e de todo o Centro Cultural Oi Futuro, lugar que abrigou e apoiou todas estas reflexões no primeiro painel A Teatralidade do Humano, resultou na edição do livro que estamos lançando em breve.

O livro A Teatralidade do Humano reúne ensaios. Palestras, mesas, depoimentos e entrevistas de mais de 50 intelectuais e artistas que pensaram, discutiram e encenaram as teatralidades, de acordo com os seis termas em debate que resultaram nos seis capítulos trazidos nesta obra, que são:

  • O Poder do teatro e as táticas de resistência
  • Agenciamentos e Provocações da vida e da arte
  • O artista, a cidade e a rua
  • As novas subjetividades e a criação coletiva
  • Teatralidades para além do humano
  • Arte e Imagem

A proposta que apresentamos de realizar o segundo momento deste amplo e longo painel, denominado A Teatralidade do Humano II – Subjetividades e Políticas da Cena e do Mundo, é no sentido de dar continuidade a este importante diálogo que se estabeleceu com a sociedade e ao espaço de debate sobre o teatro, as artes, a cultura, a política, a cidadania, a vida e as realidades locais e globais.

O teatro sempre esteve ligado a um determinado fazer artístico que se relaciona à manutenção da profissão, de um ofício, da técnica.

Ao mesmo tempo que o teatro vive suas transformações no que se refere ao espaço da cena, à dramaturgia, criação e recepção do público, também a teatralidade se alarga e atravessa muitas dimensões da vida e da arte contemporânea.

As artes plásticas estão cada vez mais teatralizadas, a literatura tem uma dimensão performática, há uma teatralidade da cena política de nossos dias, uma configuração corporal do mundo, espacial. A teatralidade traz uma idéia direta do corpo e uma outra idéia de teatralidade é a noção de astúcia, de jogo, ficção, falseamento.

A teatralidade tem também um viés antropológico que não está somente no teatro. A performance cultural inclui as manifestações afro-religiosas, indígenas, danças, hip hop, o funk, que misturam aspectos da cultura urbana, as manifestações políticas, as indignações, de movimento antiglobalização, de ressurgências em rede.

Como é que nos inserimos na sociedade do consumo? Temos algum espaço de criatividade e reinvenção do mundo usando o aparato que nos é imposto? Como a arte pode competir com o mundo da imagem? Como funcionará a imagem de maneira hegemônica nos discursos no mundo contemporâneo?

Num mundo espetaculazarizado, permeado de imagens, de mídias, de bombardeio de informações, ofertas, desfiles e vitrines nos shopping centers, como as artes se expressam e capturam o olhar e a troca com o outro?

Nos interessa, portanto, explodir e ampliar essa idéia de teatralidade com a proposta de realizar uma segunda edição do painel A Teatralidade do Humano.
Pretendemos aqui levantar uma questão, uma idéia central que irá perpassar todos os encontros, a fim de pensarmos a parte e o todo, como fossem fragmentos de um mosaico que tem uma formação, um desenho no conjunto e ao mesmo tempo guarda suas formas individuais separadamente. Esta segunda edição leva o nome de A Teatralidade do Humano II – Subjetividades e Políticas da Cena e do Mundo.

Trata-se de acompanhar, instigar e intervir na cena local e global, e na continuidade de um processo que se iniciou, de seguir esse fluxo contínuo do pensamento, das transformações no comportamento, na vida das pessoas, na política, na dinâmica da criação artística e cultural. Refletir sobre esses movimentos, insuflar ações nos diversos campos promovendo encontros inter e transdisciplinares.

Representa, em nosso entendimento, um desdobramento do debate como forma de mergulhar mais fundo em alguns temas e questões que merecem maior atenção e o envolvimento de outros atores neste processo.

Será mais uma vez resultado de discussões, encenações, performances, intervenções e exibição de imagens, que contará com a participação de artistas, professores, dramaturgos, encenadores, técnicos e acadêmicos de diferentes áreas.
A Teatralidade do Humano II – Subjetividades e Políticas da Cena e do Mundo propõe um convite, um novo chamamento para dialogar, discutir, refletir, levantar e propor questões em torno da ética, da estética, da política, da filosofia, das artes, da cultura, da comunicação, da ciência, das tecnologias, do pensamento crítico contemporâneo, do comportamento humano e do pós-humano.

Um espaço catalisador de diferentes visões de mundo, de modos de fazer e interpretar as realidades, diferentes linguagens artísticas, estéticas, experimentações e inovações dos diversos coletivos de criação.

Desta vez, além de contarmos com convidados das diferentes regiões do país, a exemplo do primeiro ciclo A Teatralidade do Humano, pretendemos ampliar a contribuição de alguns palestrantes de âmbito internacional.

O primeiro painel A Teatralidade do Humano cumpriu a sua missão e desafio de trazer à luz diferentes idéias, pensamentos, criações espetáculos e performances.

Nesta segunda edição, iremos tratar do teatro antropológico, das teatralidades do feminino, dos terreiros, dos orixás, dos rituais indígenas, das comunidades tradicionais, do hip hop, etc.

O público aceitou o convite e correspondeu ao nosso chamamento, foi provocado e também levantou questões, fez sugestões e intervenções que acabaram deflagrando outros processos.

Para manter este diálogo, criamos também o site www.ateatralidadedohumano.com.br. Os conteúdos alimentados pelo livro, pela ampliação do acesso, interação e espaço para as diferentes reflexões pretendem dar lugar a uma comunidade virtual que garantam a continuidade do debate.